30 de Novembro de 2003

Uma leitora me escreveu a propósito do artigo da semana passada sobre a professora Andréa Lisboa Salgado, comentando a importância de se sentir a tristeza e de se fazer um luto pelas perdas e estranhando que a professora não demonstre estar sentindo a terrível perda que sofreu. Na expressão da leitora “não dá para passar batida por perda tão significativa”. Concordo que não dá para negar, mas não percebo sinais de que Andréa esteja minimizando sua perda. Vejo-a ativamente lutando para sobreviver ao trauma e respeito sua privacidade, onde ela tem o tempo e o espaço necessários para viver seu luto e elaborar sua dor. Acho digna sua atitude de sofrer em silêncio e de limitar suas manifestações públicas à luta pela superação.
Uma grande perda é vivida em quatro fases: negação, revolta, tristeza e aceitação. Teoricamente estas fases se sucedem da primeira à última. Na prática, tenho observado que as pessoas oscilam entre elas, por vezes vivendo todas em um mesmo dia. Não tenho nenhuma razão para duvidar de que Andréa esteja passando por todo este turbilhão de emoções. Admiro sua atitude extremamente positiva ao enfrentar suas dificuldades e sua disposição para lutar. Pelo seu esforço de superação eu a vejo como uma heroína e como um modelo de força e coragem a ser seguido. Antes de nos deixarmos abater pelas nossas perdas convém lembrar seu exemplo de que é possível se sobreviver bem aos mais terríveis traumas.

Pergunta: Meu namorado não consegue parar em emprego nenhum e sempre mente muito. Eu o amo, mas tenho medo do rumo que tudo possa tomar . Ante ontem, ele fugiu do apartamento que havia alugado e vendeu um laptop que não pertencia a ele. Quero procurar ajuda para ele. Sua mãe, que o colocou no mundo, virou as costas para ele. Patrícia, por e-mail

Patrícia, por e-mail.

Resposta: Se ele quiser mudar, você não precisa auxiliá-lo, ele mesmo vai se virar. E se ele não quiser, é inútil tentar. Penso que você precisa entender qual a razão de continuar a se envolver com um jovem que não parece disposto a levar uma vida decente. Sem saber o quanto a mãe dele já pode ter lutado pelo filho, você a acusa a mãe de virar-lhe as costas e parece tentada a ocupar o lugar dela. Acho que você deveria guardar seu instinto materno para ajudar seus próprios filhos. Recomendo que você procure alguém menos comprometido para desenvolver uma vida em comum. Ou, pelo menos, espere até ele mostrar que mudou e que se tornou merecedor de seu amor para então namorá-lo.

Pergunta: Namoro há quase dois anos, mas não estamos bem. Já terminamos inúmeras vezes e a sensação é que estou tentando em vão mais uma vez. Paralelamente, conheci uma garota e quero muito ficar com ela. Nos falamos sempre e parece que o que sinto é correspondido. Quero me declarar para ela, mas tenho medo de perder sua amizade. Devo arriscar?

Raul, por e-mail.


Resposta: Terminar seu antigo relacionamento talvez lhe dê o estímulo necessário para perder o medo de se declarar. Você precisa decidir se pode ficar satisfeito apenas com a amizade da moça ou se deve ousar mais. Acho que você já sabe da resposta e deseja um encorajamento meu, dividindo a responsabilidade da iniciativa. Tenho a impressão de que você está com medo da cobrança que irá fazer a si mesmo no caso de sua proposta não ser bem sucedida. O medo de perder a amizade dela me parece uma desculpa infantil. Não consigo perceber como uma declaração de amor a levaria a romper a amizade com você. Ter tido um namoro mal sucedido não significa que este não possa dar certo.

Frase: “Guarde seus medos para si mesmo e partilhe com os outros sua coragem” Belo conselho do escritor inglês Robert Louis Stevenson (1850-1894)

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