A POESIA DE MACHADO DE ASSIS
Fernando Py
SOBRE MACHADO DE ASSIS, POETA
A poesia de Machado de Assis é, de certo modo, a história da evolução da poesia brasileira do Romantismo para o Parnasianismo. Machado começou, em meados dos anos 1850, escrevendo poesias românticas e sentimentais, em geral falando de amores contrariados e lembrando a morte da mãe, ao lado de homenagens a senhoras, amigos e vultos famosos recém falecidos (Frei Monte Alverne, p. ex.). Aos poucos, porém, sua poesia adquire uma certa densidade psicológica e Machado passa a colocar um tanto de ironia em seus versos.
Sua primeira coletânea, Crisálidas (1864), é basicamente romântica, com versos bem cuidados, principalmente alexandrinos do tipo francês (a que ficará preso a vida inteira, mesmo de modo não exclusivo), e alguns poemas longos e tediosos ("Versos a Corina", p. ex.). Ainda assim, sua emoção era mais contida do que a da maioria dos românticos. Em Falenas (1870), Machado, além de mostrar algumas preocupações sociais, incorporou tipos de poemas e formas métricas em geral usadas na França, e adquiriu com a leitura de Baudelaire o gosto pelo soneto não ortodoxo, ou seja, aquele que apresenta metros desiguais, fartamente aproveitados pelos parnasianos mais tarde.
Americanas (1875), à primeira vista, parece simples tributo ao indianismo de Gonçalves Dias e Alencar. Mas então Machado de Assis, mais maduro e experiente, não se limita a cantar episódios que envolvem índios -- como "A visão de Jaciúca" e "Potira". Num de seus poemas mais longos, fala dos amores infelizes de uma judia cristã-nova. Também se volta para a questão da escravatura no seu belo poema "Sabina" e para a suave simplicidade da natureza ("A flor do embiruçu").
Mas é nas Ocidentais (em Poesias completas, 1901) que seu estro assume em definitivo a sua predileção pela análise psicológica que sempre observara -- e que assumira o primeiro plano em sua obra a partir do romance Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e dos contos de Papéis avulsos (1882). Poemas como "No Alto", "Círculo vicioso", "Uma criatura", "Suave mari magno" , e outros, dão conta desse realismo transportado para a poesia. Escritos todos até 1880, fazem parte da sua extraordinária revolução pessoal e são idênticos à temática de seus romances e contos da mesma época.
Machado de Assis não foi apenas grande romancista
e contista. Sua poesia parnasiana, de que Ocidentais
é a prova cabal, surgiu como precursora dos poetas dessa
escola, tendo influenciado nomes como Alberto de Oliveira, Olavo
Bilac e muitos outros parnasianos.
POEMAS
de CRISÁLIDAS (1864)
HORAS VIVAS
Noite; abrem-se as flores...
Que esplendores!
Cíntia sonha amores
Pelo céu.
Tênues as neblinas
Às campinas
Descem das colinas,
Como um véu.
Mãos em mãos travadas,
Animadas,
Vão aquelas fadas
Pelo ar:
Soltos os cabelos,
Em novelos,
Puros, louros, belos
A voar.
"Homem, nos teus dias
Que agonias,
Sonhos, utopias,
Ambições;
Vivas e fagueiras,
As primeiras,
Como as derradeiras
Ilusões!
Quantas, quantas vidas
Vão perdidas,
Pombas malferidas
Pelo mal!
Anos após anos,
Tão insanos,
Vêm os desenganos
Afinal.
Dorme: se os pesares
Repousares,
Vês? - por estes ares
Vamos rir;
Mortas, não; festivas,
E lascivas,
Somos - horas vivas
De dormir. -"
de FALENAS (1870)
QUANDO ELA FALA
She speaks!
O speak again, bright angel!
SHAKESPEARE
Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.
Meu coração dolorido
As suas mágoas exala.
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.
Pudesse eu eternamente
Ao lado dela, escutá-la,
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala.
Minh'alma, já semimorta,
Conseguira ao céu alçá-la,
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala.
de AMERICANAS (1875)
A FLOR DO EMBIRUÇU
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
FILINTO ELÍSIO
Quando a noturna brisa envolve a terra
E à paz convida o lavrador cansado,
A fresca brisa o seio delicado
A branca flor do embiruçu descerra.
E das límpidas lágrimas que chora
A noite amiga, ela recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.
Então, à luz nascente, a flor modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o sono quando tudo é festa.
Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a asa impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!
Também ela ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ela da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio às ilusões viçosas.
É tudo seu - tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrelas;
Abrasada de amor, palpita ao vê-las,
E a todas cinge no ideal abraço.
O rosto não encara indiferente,
Nem a traidora mão cândida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua asa amiga,
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.
Ama-te a flor que desabrocha à hora
Em que o último olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, recende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.
De OCIDENTAIS (in POESIAS COMPLETAS, 1901)
O DESFECHO
Prometeu sacudiu os braços manietados
E súplice pediu a eterna compaixão,
Ao ver o desfilar dos séculos que vão
Pausadamente, como um dobre de finados.
Mais dez, mais cem, mais mil e mais um bilião,
Uns cingidos de luz, outros ensangüentados...
Súbito, sacudindo as asas de tufão,
Fita-lhe a águia em cima os olhos espantados.
Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer às raivas que a consomem.
Uma invisível mão as cadeias dilui;
Frio, inerte, ao abismo uma corpo morto rui;
Acabara o suplício e acabara o homem.
CÍRCULO VICIOSO
Bailando no ar gemia inquieto vaga-lume
"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:
"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal que toda a luz resume!"
Mas o sol, inclinando a rútila capela:
"Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"
SUAVE MARI MAGNO
Lembra-me que, em certo dia,
Na rua, ao sol de verão,
Envenenado morria
Um pobre cão.
Arfava, espumava e ria,
De um riso espúrio e bufão,
Ventre e pernas sacudia
Na convulsão.
Nenhum, nenhum curioso
Passava, sem se deter,
Silencioso,
Ante o cão que ia morrer,
Como se lhe desse gozo
Ver padecer.
CAMÕES
I
Tu quem és? Sou o século que passa.
Quem somos nós? A multidão fremente.
Que cantamos? A glória resplendente.
De quem? De quem mais soube a força e a graça.
Que cantou ele? A vossa mesma raça.
De que modo? Na lira alta e potente.
A quem amou? A sua forte gente.
Que lhe deram? Penúria, ermo, desgraça.
Nobremente sofreu? Como homem forte.
Esta imensa oblação?... É-lhe devida.
Paga?... Paga-lhe toda a adversa sorte.
Chama-se a isto? A glória apetecida.
Nós, que o cantamos?... Volvereis à morte.
Ele, que é morto?... Vive a eterna vida.
IV
Um dia, junto à foz de brando e amigo
Rio de estranhas gentes habitado,
Pelos mares aspérrimos levado,
Salvaste o livro que viveu contigo.
E esse que foi às ondas arrancado,
Já livre agora do mortal perigo,
Serve de arca imortal, de eterno abrigo,
Não só a ti, mas ao teu berço amado.
Assim, um homem só, naquele dia,
Naquele escasso ponto do universo,
Língua, história, nação, armas, poesia,
Salva das frias mãos do tempo adverso.
E tudo aquilo agora o desafia.
E tão sublime preço cabe em verso.
NO ALTO
O poeta chegara ao alto da montanha,
E quando ia a descer a vertente do oeste,
Viu uma cousa estranha,
Uma figura má.
Então, volvendo o olhar ao subtil, ao celeste,
Ao gracioso Ariel que de baixo o acompanha,
Num tom medroso e agreste
Pergunta o que será.
Como se perde no ar um som festivo e doce,
Ou bem como se fosse
Um pensamento vão,
Ariel se desfez sem lhe dar mais resposta.
Para descer a encosta
O outro estendeu-lhe a mão.
APÊNDICE
A CAROLINA
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.
Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
1906
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